Na bancada, o indutor costuma ser um dos componentes mais injustiçados no diagnóstico. Como ele raramente queima de forma evidente como um resistor ou estoura como um capacitor eletrolítico, muitos técnicos acabam pulando o teste dele ou interpretando a medição de forma errada.
A verdade é que testar um indutor apenas com o multímetro é possível, mas exige saber o que você está realmente medindo. O multímetro comum não mede indutância, ele mede apenas a resistência do fio do enrolamento. E é justamente aí que mora a maioria dos erros: uma leitura baixa pode ser perfeitamente normal, enquanto uma leitura aparentemente boa pode esconder um curto entre espiras.
Neste artigo, você vai aprender o procedimento correto de bancada para testar um indutor com multímetro, interpretar os valores de resistência e identificar os defeitos mais comuns, como enrolamento aberto, curto e sinais de superaquecimento. Também vamos mostrar quando o teste na placa engana, quando é preciso dessoldar o componente e quando o multímetro já não é suficiente para um diagnóstico confiável.
Se você trabalha com manutenção de fontes, placas industriais, áudio ou qualquer circuito com filtros e conversores, este passo a passo vai te ajudar a decidir com segurança se o indutor pode permanecer no circuito ou se precisa ser substituído.
1. O que verificar antes de testar um indutor
Antes de encostar as pontas de prova no indutor, vale gastar dois minutos analisando o contexto. Essa verificação inicial evita medições enganosas e retrabalho, principalmente em placas com fontes chaveadas e filtros.
Identifique o indutor e qual função ele exerce
Na prática, o mesmo teste muda de interpretação dependendo da função. Um indutor de filtro de entrada em uma fonte, um choke em série com a alimentação e um indutor de um conversor buck trabalham em condições diferentes. Observe a serigrafia na placa: L, FB, ou identificações como 100µH, 4R7, 101. Isso ajuda a diferenciar um indutor de potência de um bead de ferrite, que terá resistência ainda mais baixa. Se tiver o esquema, confirme se aquele indutor está em série com a alimentação ou em paralelo como parte de um filtro LC.
Entenda a diferença entre testar na placa e fora dela
Testar o indutor ainda soldado na placa é útil para uma triagem rápida, mas não é definitivo. Qualquer resistor de baixo valor, MOSFET em curto ou capacitor em paralelo pode mascarar a leitura. Na bancada, a regra é simples: se a medição ficou estranha, dessolde pelo menos um terminal e meça novamente. Essa prática simples resolve mais de 80% dos falsos diagnósticos envolvendo indutores.
Faça a inspeção visual de bancada
Muitos defeitos em indutores deixam marcas físicas antes de aparecerem no multímetro:
- Verniz escurecido ou cheiro de queimado: indica sobrecorrente e possível curto entre espiras.
- Ferrite trincado ou quebrado: comum em quedas ou aperto excessivo do parafuso de fixação em toroides. Altera a indutância mesmo com resistência normal.
- Enrolamento solto ou com fio rompido na base: típico em indutores axiais e SMD maiores após vibração.
- Solda fria ou trilha rompida ao redor do componente: simula indutor aberto.
- Marca de aquecimento na placa abaixo do indutor: sinal de que ele trabalhou acima da corrente nominal.
Se encontrar qualquer um desses sinais, o indutor já entra como suspeito principal, mesmo que o multímetro mostre continuidade.
Quando remover pelo menos um terminal do circuito
Você deve isolar o indutor quando:
- A medição na placa mostra 0 ohm cravado ou valor muito diferente do esperado para aquele tamanho de indutor.
- Há semicondutores ou resistores de baixo valor ligados em paralelo.
- O indutor faz parte de um filtro de saída de fonte, onde capacitores de baixa ESR podem interferir na leitura de resistência.
- Você precisa comparar com outro indutor igual ou consultar a especificação de resistência CC no datasheet.
Em indutores SMD, basta levantar um lado com cuidado usando estação de ar quente e pinça. Em PTH, dessoldar um terminal já é suficiente.
Segurança antes de medir
Nunca teste indutor em placa energizada com a escala de resistência. Além de queimar o multímetro, você pode carregar o indutor e levar um susto com a força contra-eletromotriz. Desligue a alimentação, aguarde a descarga dos capacitores do primário e do secundário e, em fontes chaveadas, confirme com a escala de tensão DC que o capacitor principal está abaixo de 5V. Só então mude para a escala de ohms.
Com essa checagem feita, o teste com multímetro passa a ter valor real de diagnóstico e não vira apenas um número aleatório na tela.
2. Como testar um indutor com multímetro
O multímetro comum não mede indutância, ele mede apenas a resistência do fio de cobre que forma o enrolamento. Mesmo assim, esse teste já elimina os dois defeitos mais comuns na bancada: enrolamento aberto e curto franco. O segredo está na escala correta e na interpretação.
Configuração correta do multímetro
Coloque o multímetro na escala de resistência, símbolo Ω. Para indutores, use sempre a menor escala disponível:
- Em multímetro digital, use a escala de 200Ω ou 600Ω com resolução de 0,1Ω. É nela que você vai ver variações de 0,3Ω a 15Ω, que são normais para a maioria dos indutores de potência.
- Evite a escala de continuidade com buzzer para diagnóstico final. Ela serve para triagem rápida, mas não mostra o valor real. Um indutor de 0,8Ω e um curto de 0,1Ω vão apitar igual.
- Zere as pontas: encoste uma ponta na outra e anote a resistência dos cabos, geralmente entre 0,2Ω e 0,6Ω. Subtraia esse valor da leitura do indutor para ter a resistência real do enrolamento.
Como medir a resistência do enrolamento
Com o indutor fora da placa ou com pelo menos um terminal dessoldado:
- Encoste as pontas de prova firmemente nos terminais do indutor, sem tocar com os dedos no metal das pontas.
- Aguarde 2 a 3 segundos até a leitura estabilizar. Indutores maiores podem apresentar uma pequena variação inicial devido à indutância.
- Anote o valor. É essa resistência CC, chamada de DCR nos datasheets, que você está medindo.
Exemplo de bancada: ao medir um indutor toroidal de filtro de 100µH/3A, é normal encontrar algo entre 0,4Ω e 1,2Ω. Já um indutor axial pequeno de 1mH para filtro de RF pode apresentar 12Ω a 30Ω, e isso não significa defeito.
Como interpretar uma resistência muito baixa
Essa é a maior causa de troca desnecessária de indutor. Resistência muito baixa é o comportamento normal da maioria dos indutores de potência.
- Leitura entre 0,2Ω e 2Ω: Normal para indutores de filtro de fontes chaveadas, chokes de saída de buck e indutores de armazenamento de energia. Eles usam fio grosso e poucas espiras.
- Leitura abaixo de 0,2Ω após descontar os cabos: Aí sim suspeite de curto entre espiras ou entre camadas, principalmente se o indutor aquece demais no circuito.
Se o datasheet informar DCR, compare. Um indutor de 10µH com DCR especificado de 0,5Ω medindo 0,6Ω está perfeito. Medindo 0,05Ω, provavelmente tem espiras em curto.
Como identificar um indutor com enrolamento aberto
É o defeito mais fácil de confirmar:
- Digital mostra OL, Overload ou 1 .: Enrolamento interrompido. Troca direta.
- Leitura instável que vai de alguns ohms para OL quando você mexe no fio: Fio quebrado na base do terminal ou solda fria interna, muito comum em indutores SMD após impacto.
Em fontes chaveadas, indutor aberto no filtro de saída costuma causar ripple alto e chiado audível. No teste, ele aparece como OL.
Por que a resistência medida não é a indutância
São grandezas diferentes. A resistência que você mede com o multímetro é a resistência ôhmica do fio. A indutância, medida em Henry, é a capacidade do indutor de se opor à variação de corrente e depende do número de espiras, do núcleo e da geometria.
Por isso, um indutor pode ter resistência perfeita e ainda estar ruim: se houver curto entre 5 espiras de um total de 50, a resistência vai cair muito pouco, quase imperceptível no multímetro comum, mas a indutância pode cair 30% e o circuito não funciona mais.
Exemplos práticos de medições que encontramos na bancada
- Indutor SMD 4R7 (4,7µH) de placa mãe: Leitura de 0,3Ω a 0,8Ω = normal. OL = aberto por sobrecorrente.
- Choke toroidal 330µH de filtro EMI: Leitura de 0,6Ω a 1,5Ω = normal. Se medir 0,1Ω e a fonte desarma, suspeite de curto entre espiras.
- Indutor axial 1mH 1/2W: Leitura de 18Ω a 25Ω = normal. Leitura de 0Ω = curto interno. Leitura OL = fio rompido.
- Bobina de desmagnetização PTC em série com indutor de filtro: Pode enganar. Se medir na placa, o PTC frio de baixa resistência em paralelo derruba a leitura. Dessolde um lado.
Esse teste de resistência é sua primeira triagem. Se ele passou e o defeito persiste, o próximo passo é diferenciar um indutor bom com resistência baixa de um indutor com curto entre espiras, que é o que vamos ver a seguir.
3. Como identificar indutor aberto, em curto ou danificado
Depois da medição de resistência, a interpretação é o que separa uma troca certeira de uma troca desnecessária. Um indutor pode apresentar três estados principais: aberto, com resistência anormal e com defeito interno que o multímetro não consegue mostrar claramente.
Indutor com enrolamento interrompido
É o defeito mais simples de identificar na bancada. Quando o fio interno rompe, o multímetro digital indica OL, overload ou 1 . no display, mesmo na escala mais alta de resistência.
- Na prática: em fontes chaveadas, indutor de filtro de saída aberto causa ripple muito alto, chiado e aquecimento do capacitor eletrolítico ao lado. Em circuitos de RF, o circuito simplesmente para de funcionar.
- Como confirmar: meça fora da placa. Se continuar OL, raspe levemente o verniz próximo ao terminal e meça novamente. Muitas vezes o rompimento é na solda do fio no terminal, e não no meio do enrolamento. Se voltar a ter continuidade, é só refazer a solda com cuidado.
- Em SMD: indutores 0805 e 1206 abrem com facilidade após queda da placa ou sobrecorrente. Se medir OL, já pode separar para troca.
Indutor apresentando resistência anormal
Aqui você precisa comparar com o esperado para aquele tamanho e tipo de indutor.
- Resistência muito acima do normal: indica fio fino danificado por aquecimento. Por exemplo, um indutor toroidal de 100µH que deveria ter 0,8Ω e está medindo 8Ω teve parte do enrolamento carbonizado. Ele ainda dá continuidade, mas aquece e perde rendimento.
- Resistência muito abaixo do normal: após descontar a resistência das pontas de prova, valores abaixo de 0,1Ω em indutores que deveriam ter 0,5Ω a 1,5Ω indicam curto franco entre camadas. Em indutores axiais de valor alto, medir 1Ω quando o normal seria 22Ω é sinal claro de curto.
Sempre que possível, consulte o DCR no datasheet. É a referência mais confiável.
Diferença entre resistência baixa normal e curto-circuito
Essa é a dúvida mais comum para quem está começando no reparo.
- Baixa normal: indutores de potência para buck, boost e filtros EMI usam fio grosso e poucas espiras. É normal medir 0,3Ω a 1,5Ω. Eles não aquecem em repouso e só apresentam defeito quando energizados.
- Curto real: além da resistência extremamente baixa, quase sempre vem acompanhado de sinais secundários: núcleo muito quente em poucos segundos, fusível queimando, MOSFET de chaveamento em curto junto, ou marca de aquecimento na placa abaixo do indutor.
Regra de bancada: se a resistência está baixa, mas o indutor não aquece anormalmente e o circuito ao redor não tem curto, provavelmente está bom.
Curto entre espiras e por que ele é difícil de detectar com multímetro
O curto entre espiras é o defeito mais traiçoeiro. Quando duas ou três espiras se tocam devido à falha do verniz isolante, a resistência total cai muito pouco.
Exemplo prático: um indutor de 47 espiras com 1,2Ω de resistência. Se 3 espiras entram em curto, a resistência cai para cerca de 1,12Ω. Essa diferença de 0,08Ω é invisível para um multímetro comum de 3 1/2 dígitos. No entanto, a indutância cai quase 15% e o núcleo satura antes da hora, fazendo a fonte apitar, perder regulação ou queimar o transistor de chaveamento.
Por isso, quando você suspeita de curto entre espiras, o multímetro serve apenas como triagem. A confirmação precisa de medidor LCR ou teste em circuito.
Alterações físicas que indicam superaquecimento ou falha
Mesmo sem medir, observe:
- Verniz escurecido, derretido ou com cheiro forte: sobrecorrente prolongada.
- Ferrite rachado ou lascado: queda ou aperto excessivo. Altera a permeabilidade e a indutância cai, mesmo com resistência ok.
- Capa plástica deformada em indutor SMD blindado: aquecimento interno.
- Resíduo de fluxo carbonizado ao redor dos terminais: ponto quente crônico.
- Indutor solto na placa: vibração rompeu o fio internamente, mede bem parado, mas abre quando vibra.
Quando uma medição aparentemente normal não significa que o indutor está bom
Este é o ponto que diferencia o nível 2 de um iniciante. Você pode medir 0,9Ω em um indutor de 100µH, achar que está perfeito, e o defeito continuar. Isso acontece em três situações comuns:
- Curto parcial entre espiras: como vimos, não aparece na resistência.
- Núcleo saturado ou com permeabilidade alterada por aquecimento: a resistência continua igual, mas o indutor não armazena mais energia como deveria.
- Indutor que funciona em baixa corrente, mas falha sob carga: só aparece quando a fonte exige corrente. Na bancada, o indutor mede bem frio, mas com carga aquece e a indutância despenca.
Nesses casos, o teste de resistência foi útil para descartar aberto e curto franco, mas você precisa avançar para teste fora da placa com comparação, medidor LCR ou análise do funcionamento do circuito, que veremos nas próximas seções.
4. Como testar um indutor diretamente na placa
Medir o indutor sem remover da placa é tentador e economiza tempo, mas é também onde ocorrem os falsos diagnósticos. O multímetro não enxerga apenas o indutor, ele enxerga tudo que está ligado em paralelo com ele.
Limitações da medição diretamente no circuito
Quando você mede na placa, a leitura de resistência é a resultante de todos os caminhos paralelos. Um indutor de 1Ω em paralelo com um resistor de 10Ω será lido como aproximadamente 0,9Ω. Se houver um MOSFET ou diodo em curto na mesma trilha, você vai ler praticamente 0Ω e pode condenar o indutor injustamente.
Por isso, a medição na placa serve apenas como triagem rápida. Se medir OL, o indutor provavelmente está aberto, mas ainda pode ser trilha rompida. Se medir valor muito baixo, pode ser o indutor ou o circuito ao redor. A confirmação exige isolar.
Influência de resistores, diodos, capacitores e outros componentes
- Resistores em paralelo: muito comuns em filtros snubber e redes de amortecimento. Um resistor de 2,2Ω em paralelo com um choke de 0,8Ω vai fazer o multímetro mostrar cerca de 0,58Ω, abaixo do DCR real do indutor.
- Diodos e MOSFETs: em fontes buck e boost, o indutor fica ligado ao dreno do MOSFET e ao ânodo do diodo de roda livre. Se um deles estiver em curto, a leitura do indutor cai para 0Ω. Meça o diodo na escala de diodo para descartar.
- Capacitores: capacitores eletrolíticos e cerâmicos de desacoplamento não alteram a resistência DC em regime, mas se estiverem em curto, puxam a leitura para zero. Além disso, capacitores carregados podem injetar tensão na escala de resistência e gerar leitura instável.
- Outros indutores ou transformadores: em filtros EMI de entrada, dois indutores acoplados podem estar em série ou paralelo. A leitura será a soma ou o paralelo deles.
Como interpretar uma leitura inesperada
Use esta lógica de bancada:
- Leitura OL na placa: pode ser indutor aberto, mas também pode ser trilha cortada ou chave aberta em série. Verifique continuidade da trilha até o próximo componente.
- Leitura muito menor que o esperado: dessolde um lado antes de condenar. Se após isolar a leitura subir para o valor normal, o problema estava no circuito paralelo.
- Leitura instável subindo e descendo: capacitor em paralelo carregando. Descarregue os capacitores da linha ou meça com um terminal isolado.
- Leitura que muda ao inverter as pontas: presença de semicondutor em paralelo. É o comportamento clássico de diodo conduzindo em um sentido.
Quando dessoldar um terminal
Dessolde pelo menos um lado sempre que:
- A leitura na placa for 0Ω ou muito próxima de zero.
- A leitura for muito diferente do DCR esperado para aquele tamanho físico de indutor.
- O indutor faz parte de um conversor DC-DC, onde o MOSFET e o diodo estão diretamente ligados a ele.
- Você já testou os componentes vizinhos e não encontrou curto, mas a placa continua desarmando.
Em SMD, levante um lado com ar quente a 350°C com bico médio, usando fluxo. Em PTH, com sugador e ferro de 40W a 60W, levante apenas um terminal para não perder a referência mecânica.
Cuidados em placas energizadas
Nunca use escala de resistência com a placa energizada. Além de danificar o multímetro, você mede a tensão do circuito e não a resistência. Se precisar avaliar o indutor com a placa ligada, mude a abordagem:
- Use escala de tensão DC para verificar se há queda de tensão anormal sobre o indutor, indicando sobrecorrente.
- Use termômetro infravermelho ou toque rápido para verificar aquecimento excessivo do núcleo em segundos.
- Em fontes chaveadas, use osciloscópio para verificar forma de onda de corrente, não multímetro.
Exemplos reais de reparo
- Fonte ATX que não liga e indutor de saída medindo 0Ω na placa: ao dessoldar, o indutor media 0,6Ω normal. O curto era no MOSFET duplo de retificação do secundário.
- Placa de som automotivo com choke de 47µH medindo 2,2Ω na placa: após isolar, media 0,4Ω. O resistor de amortecimento de 2,7Ω em paralelo estava alterando a leitura, indutor estava bom.
- Roteador com indutor SMD 4,7µH medindo OL na placa: trilha micro-rompida sob o verniz após oxidação. Indutor estava bom, defeito era na trilha.
- Fonte de TV LED com chiado e indutor de 330µH medindo 0,9Ω normal na placa: ao testar com LCR, indutância estava em 98µH. Curto entre espiras não apareceu no multímetro, só no teste de indutância.
Medir na placa ajuda a ganhar tempo, mas a decisão final de condenar o indutor só deve ser tomada com ele isolado. É esse isolamento que vai te dar segurança para partir para o próximo nível de teste quando o multímetro já não é suficiente.
5. Quando o multímetro não é suficiente para testar um indutor
O teste de resistência que fizemos até aqui é excelente para descartar defeitos francos, como fio rompido e curto direto. Mas ele para por aí. Um indutor pode medir uma resistência perfeita e ainda estar com defeito que só aparece quando ele precisa armazenar energia e trabalhar com corrente alternada.
Limitações do teste de resistência
O multímetro mede apenas a resistência CC do cobre. Ele não enxerga três problemas clássicos de bancada:
- Curto entre poucas espiras: queda de resistência de 0,05Ω a 0,1Ω, invisível para multímetro comum de 3 1/2 dígitos.
- Núcleo com permeabilidade alterada: ferrite trincado, superaquecido ou saturado. A resistência continua igual, mas a indutância despenca.
- Indutor que falha sob carga: mede bem frio, mas com corrente nominal aquece, satura e perde indutância, fazendo a fonte apitar ou desarmar.
Quando você já descartou aberto e curto franco e a placa continua com sintoma, é hora de sair da escala de ohms.
Medição da indutância com medidor LCR
O medidor LCR é o instrumento correto para confirmar se o indutor ainda tem o valor para o qual foi projetado. Na bancada intermediária, um LCR de mão já resolve.
- Como medir: isole o indutor, selecione escala de indutância L, frequência de teste de 1kHz para indutores de 1µH a 1mH e 100Hz para indutores maiores. Alguns LCRs permitem escolher, e isso influencia o resultado.
- O que observar além do valor L: verifique também a resistência série ESR ou DCR que muitos LCRs mostram. Se a indutância caiu 20% e a DCR subiu, é sinal de aquecimento e perda de isolamento entre espiras.
- Dica prática: mantenha os terminais curtos. Fios longos acrescentam indutância parasita e enganam a medição em valores abaixo de 10µH.
Como comparar a indutância medida com a especificação
Todo indutor tem tolerância. Indutores de potência para fontes costumam ter tolerância de 20% a 30%, indutores de filtro EMI podem ter 25% e indutores para RF podem ter 10%.
- Exemplo prático: um indutor marcado 100µH com tolerância de 20% pode medir de 80µH a 120µH e ainda ser considerado bom. Se medir 47µH, mesmo com resistência normal de 0,7Ω, está com curto entre espiras ou núcleo danificado.
- Sem datasheet: compare com um indutor igual bom, de outra placa ou novo do estoque. Essa comparação direta é muito usada em assistência técnica e evita ficar preso a datasheet.
- SMD com código 4R7, 100, 101: 4R7 = 4,7µH, 100 = 10µH, 101 = 100µH. Meça e veja se está dentro da tolerância. Se estiver muito abaixo, condene.
Problemas que não aparecem no teste de continuidade
- Saturação precoce: o indutor funciona em baixa corrente, mas com carga nominal o núcleo satura e a indutância cai bruscamente. Sintoma clássico é fonte que funciona sem carga e desarma com carga.
- Perda no núcleo: ferrite que trabalhou quente por muito tempo aumenta as perdas. O indutor aquece mesmo com corrente normal.
- Capacitância parasita aumentada: em indutores com verniz danificado, espiras próximas criam capacitância que altera o comportamento em alta frequência, comum em filtros de saída de conversores.
Nenhum desses defeitos altera significativamente a resistência DC.
Quando utilizar osciloscópio ou outros métodos de diagnóstico
Quando o LCR não está disponível ou o defeito só aparece em funcionamento, o osciloscópio ajuda:
- Forma de onda de corrente: com um resistor shunt de 0,1Ω em série ou com ponta de corrente, observe a rampa de corrente no indutor de um conversor buck. Rampa com subida muito rápida e pico alto indica indutância baixa ou saturação.
- Ringing test: método clássico de bancada. Carregue o indutor com um pulso rápido e observe o amortecimento da oscilação no osciloscópio. Indutor bom oscila por vários ciclos, indutor com curto entre espiras amortece em 1 ou 2 ciclos. Muitos reparadores fazem isso com gerador de pulso simples e scope.
- Teste térmico: deixe o circuito funcionar por 2 minutos e meça a temperatura do indutor com termômetro infravermelho. Indutores de potência bons ficam mornos, com curto entre espiras ficam quentes em segundos.
Importância de avaliar o indutor dentro do funcionamento do circuito
Um indutor nunca trabalha sozinho. Em um conversor DC-DC, ele forma um conjunto com MOSFET, diodo, capacitor e controle PWM. Uma indutância 30% abaixo pode fazer o controle entrar em modo descontínuo, aumentar ripple e aquecer o MOSFET, que queima e leva a culpa.
Por isso, antes de fechar o diagnóstico, pergunte: o indutor está aquecendo mais que os vizinhos? A frequência de chaveamento mudou? O ripple na saída está alto mesmo com capacitores bons? Se a resposta for sim e a resistência estava normal, a suspeita de indutor com indutância baixa ou saturação ganha força.
O teste de resistência foi sua primeira peneira. O LCR e a análise em funcionamento são a segunda peneira, onde você pega os defeitos que realmente fazem a placa voltar para a bancada.
6. Passo a passo para diagnosticar um indutor com defeito
Para não se perder em medições contraditórias, siga uma sequência fixa. Esse fluxo é o que usamos na bancada da Tecset e evita tanto a troca desnecessária quanto deixar passar um indutor com curto entre espiras.
Sequência prática de diagnóstico
- Inspeção visual
- Teste de resistência na placa para triagem
- Isolamento de um terminal quando a leitura for suspeita
- Teste de resistência fora da placa com desconto dos cabos
- Comparação com datasheet ou com indutor bom
- Confirmação de indutância com LCR quando aplicável
- Decisão de troca e escolha da reposição
1. Inspeção visual
Antes de ligar o multímetro, olhe com lupa. Procure verniz escurecido, ferrite trincado, capa plástica deformada em SMD blindado, solda fria no terminal e marca de aquecimento na placa. Em indutores toroidais, verifique se o fio não rompeu na curva de saída do núcleo. Se encontrar dano físico evidente, já separe o componente como suspeito principal.
2. Teste de resistência
Coloque o multímetro na escala de 200Ω ou 600Ω, zere as pontas encostando uma na outra e meça. Anote o valor com o indutor ainda na placa. Se medir OL, é forte indício de aberto. Se medir 0Ω cravado, pode ser curto no circuito paralelo, não necessariamente no indutor. Se medir valor plausível para o tamanho físico, siga para o próximo passo.
3. Comparação com outro componente ou com o esquema
Essa etapa economiza muito tempo. Se o esquema informar DCR, compare diretamente. Se não tiver esquema, use a regra prática: indutor de potência de fonte até 100µH costuma ter 0,2Ω a 1,5Ω, indutor axial de 1mH costuma ter 10Ω a 35Ω. Melhor ainda, pegue um indutor igual de uma placa sucata ou novo do estoque e meça lado a lado na mesma escala. Diferença maior que 20% na resistência já merece atenção.
4. Teste fora da placa quando necessário
Dessolde pelo menos um terminal sempre que a medição na placa for 0Ω, OL ou muito diferente do esperado. Em SMD, levante um lado com ar quente a 350°C usando fluxo. Em PTH, levante um pino. Meça novamente fora do circuito. Se agora a leitura normalizou, o defeito estava nos componentes paralelos, como MOSFET ou diodo em curto. Se continuar OL, está aberto. Se continuar com resistência extremamente baixa após descontar cabos, suspeite de curto franco.
5. Confirmação da indutância quando aplicável
Se a resistência estiver normal mas o sintoma persistir, como fonte chiando, desarmando com carga ou ripple alto, use medidor LCR. Selecione 1kHz para indutores até 1mH. Compare com a tolerância. Um indutor de 100µH com tolerância de 20% pode medir 80µH a 120µH. Se medir 45µH, mesmo com resistência de 0,8Ω perfeita, está com curto entre espiras ou núcleo danificado. Na falta de LCR, faça o teste térmico: ligue a placa por 2 minutos e veja se o indutor aquece muito mais que os vizinhos.
6. Como decidir se o indutor deve ser substituído
Condene o indutor quando:
- Medir OL fora da placa.
- Medir resistência muito acima do DCR especificado, indicando aquecimento.
- Medir indutância 30% ou mais abaixo do nominal.
- Apresentar ferrite trincado, verniz queimado ou aquecimento excessivo em segundos.
- O circuito só estabiliza quando você instala outro indutor de mesmo valor para teste.
Mantenha o indutor quando a resistência está dentro do DCR, a indutância está dentro da tolerância e o defeito desaparece ao testar os componentes ao redor. Trocar um indutor bom por um de qualidade inferior pode piorar o circuito.
Cuidados ao escolher o componente de reposição
Indutor não se escolhe só por indutância. Observe:
- Indutância e tolerância: respeite o mesmo valor, por exemplo 100µH, e prefira mesma tolerância de 20%.
- Corrente nominal e corrente de saturação: a reposição deve ter corrente igual ou maior. Um indutor de 100µH/2A não substitui um de 100µH/3,5A. A corrente de saturação Isat deve ser maior que o pico do circuito.
- Resistência DC DCR: DCR menor é melhor, pois gera menos perda, mas não use DCR muito menor com fio mais grosso se o núcleo for menor, pode saturar antes.
- Tipo de núcleo e blindagem: troque blindado por blindado. Indutor aberto em circuito que usava blindado pode gerar EMI e interferir em outras partes.
- Tamanho físico: em SMD, respeite o footprint. Um 4,7µH em encapsulamento 6x6mm tem corrente muito diferente de um 4,7µH em 2x2mm.
Na dúvida, consulte o datasheet do indutor original. Fabricantes como Bourns, Würth Elektronik e Murata informam DCR, Isat e Irms. Trocar apenas por valor de indutância é o erro mais comum que faz a fonte voltar com o mesmo defeito semanas depois.
<Conclusão
O teste de resistência com multímetro é uma triagem rápida e indispensável na bancada. Ele te permite descartar com segurança os dois extremos: o indutor aberto, que aparece como OL, e o curto franco.
Mas ele é apenas a primeira verificação. Como vimos ao longo do artigo, uma resistência baixa pode ser perfeitamente normal para indutores de potência, e uma leitura aparentemente boa pode esconder defeitos como curto entre espiras, ferrite trincado ou saturação sob carga.
Um diagnóstico realmente confiável exige avaliar o indutor dentro do contexto do circuito: observar aquecimento, comportamento com carga, ripple na saída e, quando necessário, confirmar a indutância com um medidor LCR ou com a análise da forma de onda no osciloscópio.
Adotando essa sequência de inspeção visual, teste isolado fora da placa e avaliação em funcionamento, você evita trocas desnecessárias e aumenta muito sua taxa de acerto no reparo de fontes chaveadas e conversores DC-DC.


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